CARTAS DA GUERRA (2016, Ivo M. Ferreira)




[SESSÕES ESPECIAIS]
Correio sentimental.

No cerne de CARTAS DA GUERRA, reside o fluxo da correspondência entre António Lobo Antunes, alferes médico em Angola (1971-1973), e a sua esposa Maria José, no qual o espectador se embrenha totalmente: somos testemunhas — e cúmplices — de uma torrente epistolar romântica, de saudade e desânimo derivado de um conflito interminável e nebuloso.
Paralelamente, Ivo Ferreira traça aquele que já pode ser considerado como um dos títulos fundamentais, na escassa cinematografia portuguesa dedicada ao tema, sobre a Guerra Colonial. A atmosfera hipnótica, um trabalho de fotografia poético e colossal, e o rosto desencantado de Miguel Nunes invocam um período da História de Portugal onde o Império já não detinha qualquer "feitiço" nacionalista; apenas exaustão física, empobrecimento moral, ruína humana.

THE 1000 EYES OF DR. MADDIN (2015, Yves Montmayeur)




[DIRECTOR'S CUT]
A arte de filmar fantasmas.

Em THE FORBIDDEN ROOM — título a que THE 1000 EYES OF DR. MADDIN faz breve introdução —, há uma frase recorrente que poderia perfeitamente aplicar-se ao cinema de Guy Maddin: "Dreams! Visions! Madness!". A partir desse mote, Yves Montmayeur lista, de forma biográfica e didáctica, o percurso do "David Lynch canadiano", a sua obsessão pela estética do cinema mudo e o assombro que todos os filmes perdidos, esses "unhappy spirits doomed to wander the landscape of film history", lhe provoca.
Entre as memórias de ARCHANGEL e MY WINNIPEG, é de lamentar que Montmayeur não tenha incrementado detalhe ao perfil que constrói sobre Guy Maddin. A sua cativante filmografia merecia ampliada metragem documental.

THE WITCH (2015, Robert Eggers)




[BOCA DO INFERNO]
Tempos de fome, tempos de crueldade.

Do horror manifestado a partir do seu contexto histórico, THE WITCH é obra perturbadora, uma narrativa slow burning de inquietação e demência que se entranha nas nossas próprias convicções. O negro sobrenatural do filme é pura causa e efeito de uma percepção condicionada, por um simplório fervor religioso, às provações — inadaptação agrícola e técnica, isolamento, fome e doença — vividas pelos primeiros colonos da Nova Inglaterra, no Século XVII.
Sem paralelo imediato, com o ocasional susto para "agitar" os mais exigentes fãs do género e até à tentação final, Robert Eggers recorre ao terror para dissecar o percurso e a psique dos primeiros norte-americanos. Por outras palavras, aqui residem as origens de As Bruxas de Salem.

INNOCENCE OF MEMORIES (2015, Grant Gee)




[SILVESTRE]

Corações desfeitos em Istambul.

Documentário sobre o profuso fascínio da literatura — sobretudo, como realidade e ficção se enlaçam, ao ponto do enredo de um livro converter-se, literalmente, em temática museológica — Orhan Pamuk, e o seu imaginário criativo, assume o protagonismo de uma obra "deambulante" pelas ruas e pelos becos de Istambul, genuínos palcos (rest assured, muito distante do conceito de "postal turístico") das memórias e vivências do romancista turco.
Envolvente e onírico, INNOCENCE OF MEMORIES revela-se uma agradável transposição das palavras do singular e laureado perfil literário de Pamuk para o encantatório poder das imagens em movimento.

The Short Guide to IndieLisboa 2016 — Paul Verhoeven



Entre as sessões dedicadas a Paul Verhoeven, Herói Independente do IndieLisboa 2016, é quase obrigatório o nosso destaque para a exibição — em sessão única — do conjunto de curtas-metragens assinadas pelo autor holandês.
Seis primeiras obras, de vincado teor autobiográfico e onde a juventude assume presença cimeira, que representam uma ocasião singular para sondar paralelismos entre os primórdios do realizador e o seu posterior sucesso internacional em obras como O QUARTO HOMEM, ROBOCOP — O POLÍCIA DO FUTURO e INSTINTO FATAL.

  • . EÉN HAGEDIS TEVEEL (1960)


  • Uma mulher, casada com um artista, inicia uma relação amorosa com um dos seus estudantes, o qual já tem a sua própria amante. As duas rivais cruzam-se. Filme de estreia de Paul Verhoeven, realizado quando este era ainda estudante em Leiden.


  • . NIETS BIJZONDERS (1961)


  • Feito em improvisações e muito inspirado pelo cinema da nouvelle vague: inspirado por uma citação de William Faulkner, NIETS BIJZONDERS é um filme com uma atmosfera de jazz.


  • . DE LIFTERS (1962)


  • Um road movie sobre três homens (um condutor, dois penduras) e uma mulher. Paul Verhoeven filma uma ficção inspirada na sua juventude entre viagens à boleia.


  • . FEEST! (1963)


  • Uma história sobre o manifesto afecto de um rapaz estudante burguês por uma rapariga de classe diferente. Inspirado nos tempos de escola de Paul Verhoeven, FEEST! foi rodado no liceu que o próprio realizador frequentou.


  • . HET KORPS MARINIERS (1965)


  • Documentário sobre o Royal Dutch Marine Corps, foi realizado quando Paul Verhoeven ainda cumpria serviço militar na Marinha.



  • . DE WORSTELAAR (1971)


  • O padre Wouters descobre o que filho tem uma relação com a jovem esposa de um árbitro. Decide então lançar-lhe uma aposta: se o seu filho derrotar um rival muito mais forte no ringue, ele poderá manter a sua namorada. Contra todas as expectativas, o rapaz ganha. Última curta metragem de Verhoeven antes de se dedicar à longa-metragem.


A sessão de curtas-metragens de Paul Verhoeven terá lugar no dia 30 de Abril, às 15h30, na Cinemateca Portuguesa.
O programa completo do IndieLisboa 2016, que decorrerá de 20 de Abril até 1 de Maio, pode ser consultado no site oficial do Festival.

The Short Guide to IndieLisboa 2016 — Part II



Destaques da Competição Nacional de Curtas-Metragens.

  • A GUEST + A HOST = A GHOST (Jorge Jácome)

  • Duchamp formou o jogo de palavras A Guest + A Host = A Ghost, Jorge Jácome continua a associação livre em equações visuais até chegar à solução.


  • ASCENSÃO (Pedro Peralta)

  • A ascese formal de ASCENSÃO, reduzida a três magníficos planos sequência, combina com a transfiguração mortificada da sua narrativa: o cinema como matéria de milagres.


  • BALADA DE UM BATRÁQUIO (Leonor Teles)

  • Tal como os ciganos, os sapos de loiça não passam despercebidos a um olhar mais atento. BALADA DE UM BATRÁQUIO surge assim num contexto ambíguo. Um filme que intervém no espaço real do quotidiano português como forma de fabular sobre um comportamento xenófobo.


  • CABEÇA D'ASNO (Pedro Bastos)

  • Um filme experimental que parte de duas questões: como surge a primeira imagem na nossa cabeça, e quando uma imagem perde o seu significado original e se transforma numa outra coisa.


  • CAMPO DE VÍBORAS (Cristèle Alves Meira)

  • Em Trás-os-Montes, uma história de mistério e más-línguas durante as festividades dos Caretos.


  • CHATEAR-ME-IA MORRER TÃO JOVEEEEEM... (Filipe Abranches)

  • Tu, pobre soldadinho, vais alegre para a guerra, sem saber que já levas a pétala vermelha que marca os que irão nela perecer. Ela é a morte amarela mostarda que te fará sufocar numa trincheira lamacenta e pestilenta, não sem antes te apresentar a alguns danados que já partiram e lá te esperam nos campos da desolação.


  • HEROÍSMO (Helena Estrela Vasconcelos)

  • Um rapaz vive, às escondidas da noite, num centro comercial abandonado. Uma rapariga vem visitá-lo, a desolação preenche os espaços vazios.


  • LIVE TROPICAL FISH (Takashi Sugimoto)

  • Takashi Sugimoto, director de fotografia, estreia-se na realização com LIVE TROPICAL FISH, feito de longos planos fixos num preto e branco brilhante.


  • MACABRE (Jerónimo Rocha & João Miguel Real)

  • Um homem tem um acidente de carro num bosque o que o leva a uma casa sombria: MACABRE constrói-se como um delicioso compêndio de situações do cinema gótico.


  • MENINA (Simão Cayatte)

  • Durante o Estado Novo, uma "rapariga ideal" começa a suspeitar dos atrasos do marido: um elegante exercício de reconstituição e mise-en-scène.


  • O DESVIO DE METTERNICH (Tiago Melo Bento)

  • Leopoldina de Hasburgo viaja para encontrar D. Pedro IV (I do Brasil), mas um paraíso no meio do Atlântico aguarda-a em O DESVIO DE METTERNICH.


  • SEM ARMAS (Tomás Paula Marques)

  • Num prédio em ruínas juntam-se uns rapazes, mas a amizade é o elo mais fraco quando se fica Sem Armas.


  • THE HUNCHBACK (Gabriel Abrantes & Ben Rivers)

  • Baseado num conto de As Mil e uma Noites, THE HUNCHBACK acompanha um programa de reintegração emocional simulando outras épocas e outros géneros cinematográficos.


  • TRANSMISSION FROM THE LIBERATED ZONES (Filipa César)

  • Nos anos 70, um grupo sueco visitou regiões já livres do colonialismo português. TRANSMISSION FROM THE LIBERATED ZONES recupera as suas imagens e testemunhos e, num exercício performativo, situa-as no presente.


O alinhamento completo da Competição Nacional de Curtas-Metragens do IndieLisboa 2016, que decorrerá de 20 de Abril até 1 de Maio, pode ser consultado no site oficial do Festival.

Meshes of the Afternoon #32



Na ilha de Jackson Lake, em pleno Rio Alabama, residem as ruínas dos cenários erigidos para O GRANDE PEIXE, de Tim Burton.
Desde 2003, estas construções não foram reutilizadas nem destruídas. O fotógrafo Johnny Joo aproveitou o facto para fotografar o que resta, actualmente, das set pieces de um dos seus filmes favoritos.









A cobertura fotográfica de Johnny Joo pode ser visualizada, na íntegra, no seu site oficial.

Meshes of the Afternoon #31



Posters fan made para THE NEON DEMON, de Nicolas Winding Refn.

The Short Guide to IndieLisboa 2016 — Part I



Destaques da Competição Internacional de Curtas-Metragens.

  • «[...] CRAVING FOR NARRATIVE (Max Grau)

  • Num cenário visual semelhante ao desktop de um computador, analisa-se uma das sequências mais famosas de BRILHANTINA. Um ponto de partida para a reflexão sobre obsessão, nostalgia, ritmo, repetição e teorias dos media elevados pelo desenvolvimento da Internet.


  • A COAT MADE DARK (Jack O'Shea)

  • Dois assaltantes alcançam fortuna depois de roubarem um casaco misterioso. Assim começa este conto de humor negro, onde Midnight, um cão antropomorfizado, e o seu servo humano Peter lutam pelo poder, e à custa do mesmo casaco.


  • ANOTHER CITY (Lan Pham Ngoc)

  • Uma mulher de meia-idade, encharcada, tira a sua peruca espreitando por uma janela de vidro. Um jovem desfaz-se em lágrimas numa sala de karaoke revestida por um papel de parede com uma paisagem tropical. Uma jovem mulher tenta limpar uma mancha do vestido de noiva que enverga. Cada dificuldade é pautada por um refrão asiático familiar...


  • DEER FLOWER (Kangmin Kim)

  • Dujung, um estudante da primária, viaja com os seus pais para uma quinta nos subúrbios. Embora os pais acreditem que a especialidade da quinta, dispendiosa e rara, consiga fortalecer o corpo do seu filho, Dujung sofre uma série de efeitos secundários.


  • LA FIN D'HOMÈRE (Zahra Vargas)

  • Durante uma caçada, Homère mata acidentalmente um abutre-barbudo, espécie protegida e em vias de extinção. Como consequência da imensa indignação pública, o caçador perseguido perde a vida. Linchamento colectivo ou lenda urbana? Uma fábula que alimenta os muitos rumores que grassam por este reino.


  • LE GOUFFRE (Vincent Le Port)

  • Céleste trabalhou no campo com o seu tio durante todo o Verão. Na véspera de abandonar a região, é informada que desapareceu uma criança.


  • GULLIVER (María Alché)

  • Depois de uma festa, Agos e Ren viajam pelo tempo até a uma estranha dimensão, onde se recordam de ali terem estado antes.


  • TEN METER TOWER (Maximilien Van Aertryck & Axel Danielson)

  • Piscina. Interior. Dia. Prancha de 10 metros. A câmara está focada na plataforma. O som configurado para captar a plateia enquanto tudo acontece lá em cima. Várias pessoas, a sós ou com um amigo ou companheiro, sobem a prancha, atrevem-se a caminhar até à beira, olham para baixo e hesitam. O que faz as pessoas saltar? O que significa aquela altura? O que exige mais coragem: mergulhar ou voltar para trás?


  • LA IMPRESIÓN DE UNA GUERRA (Camilo Restrepo)

  • Durante mais de 70 anos, a Colômbia foi palco de um conflito interno armado cujos contornos parecem ter-se desvanecido com o tempo. Progressivamente, instalou-se um clima de violência generalizada em toda a sociedade. A violência e a barbárie impregnaram todos os aspectos da vida quotidiana, deixando as suas marcas por toda a parte. Talvez a história desta guerra difusa se conte pela própria multitude das suas marcas.


  • ISABELLA (Duncan Cowles & Ross Hogg)

  • De quanta vida precisas para te manteres fiel a ti próprio?


  • ISABELLA MORRA (Isabel Pagliai)

  • Qual é o elo de ligação entre as ferozes fábulas de Adriana, uma menina moderna, e a poesia de Isabella, acusada de traição, no Século XVI, pelos seus próprios irmãos? Aqui, Adriana conta uma história, Camille resmunga e Océane tenta convencer uma boneca a assumir o seu interminável discurso.


  • THE LASTING PERSIMMON (Kei Chikaura)

  • Risaki regressa à sua invernal terra natal, Yamagata, que fica a mais de 400km de Tóquio. E tudo indica que o quotidiano da sua família e daquela aldeia manteve-se inalterado: a limpeza da neve, a produção de pickles, as pontes cobertas de neve sobre o rio extenso e os frutos do caqui que ficam sempre por colher nas árvores.


  • LOVE (Réka Bucsi)

  • Uma curta-metragem que descreve, em três capítulos diferentes, os efeitos de um impacto num sistema solar distante, afligido por mudanças de luz e gravidade.


  • LES MONTS S'EMBRASENT (Laura Morales)

  • Dois irmãos recordam o seu passado enquanto mineiros, numa obra que procura explorar a essência de um elemento químico que ainda contém mistérios ocultos. Entre 1986 e 1989, o município de Bondons sofreu diversas alterações na sua paisagem natural devido à extracção de toneladas de xisto de urânio.


  • NON-CONTRACTUEL (Paul Heintz)

  • Documentário de uma ficção dissimulada pela realidade: a indústria do entretenimento pedagógico. Através de acções de formação para pessoas desempregadas, onde se simula o emprego de escritório, observa-se as dificuldades dos "estagiários" nesta empresa particular em se conformarem com a normalidade, em especial a do mercado laboral.


  • NUEVA VIDA (Kiro Russo)

  • Os mistérios, ansiedades e sonhos de uma vida nova.


  • OUSTAZ (Bentley Brown)

  • Um realizador recorda um vídeo caseiro, feito no Chade em 2000, para reflectir sobre a morte do seu professor árabe e os tempos em que produziam filmes juntos.


  • RATE ME (Fyzal Boulifa)

  • O aparente sumário de uma série de registos online de uma call girl adolescente, cedo se transforma num comentário, provocador e formalmente audacioso, sobre a fluidez de identidades e as percepções juvenis na era da Internet.


  • THE REFLECTION OF POWER (Mihai Grécu)

  • Na capital mais secreta do mundo, uma multidão assiste a um espectáculo enquanto o desastre ameaça a cidade inteira...


  • THUNDER ROAD (Jim Cummings)

  • Jimmy Arnaud presta o último elogio à sua mãe.


  • TOUT LE MONDE AIME LE BORD DE LA MER (Keina Espiñeira)

  • Junto à orla costeira, e enquanto aguardam por uma passagem para a Europa, um grupo de homens entretém-se a interpretar um filme ficcional.


  • UNDER THE SUN (Qiu Yang)

  • Depois de um incidente, duas famílias entram em desordem. Nada de novo debaixo do sol.


  • UZU (Gaspard Kuentz)

  • O Festival de Outono de Dogo, uma das celebrações religiosas mais violentas do Japão, realiza-se todos os anos na cidade de Matsuyama. Alternando entre pontos de vista externos e distantes e a perspectiva de uma câmara subjectiva, entrelaçando silêncios com o tumulto de um transe colectivo, UZU mistura etnografia visual com reportagem de guerra para registar uma coreografia sensorial imbuída de violência.

O alinhamento completo da Competição Internacional de Curtas-Metragens do IndieLisboa 2016, que decorrerá de 20 de Abril até 1 de Maio, pode ser consultado no site oficial do Festival.

Meshes of the Afternoon #30



Meshes of Lynch: como as visões de Maya Deren e David Lynch se conjugam para a formação de uma definição única de Cinema.
E importa citar Joel Bocko, o autor deste video essay articulado para o site Fandor: "Maya Deren and David Lynch are brilliant directors not merely because of their vivid images or ability to tell a story without precisely telling a story. They are attuned to something that runs much deeper than pure cinema or pure art, something that strikes a chord deep within. They have the ability to manifest our dream lives onscreen."